A Soguima é um dos nomes incontornáveis na área da transformação e comercialização de produtos de pesca na região norte e no país. Com 30 anos de experiência, a Soguima, tem vindo a evoluir de uma forma sustentada, apoiada numa estratégia voltada para as necessidades do seu mercado e desenvolvendo a sua atividade em função das suas demandas.

Em conversa com o Guimarães Marca, Emanuel Guimarães, Diretor Geral da Soguima, começou por fazer uma pequena resenha pela história da empresa, que nasceu pelas mãos do seu pai e do seu tio, num anexo da casa da avó, na altura um negócio essencialmente focado no pescado. Há cerca de 15 anos decidiram, apoiados no conhecimento adquirido ao longo dos anos, e pensando sempre no seu público-alvo – o consumidor final – apostar na comercialização de Bacalhau Demolhado Ultracongelado, “utilizamos todo o nosso conhecimento adquirido na transformação do pescado, aplicamos num produto que já era conhecido do consumidor, mas sobre um conceito inovador, o que nos permitiu ganhar alguma notoriedade no mercado. Neste momento já existem mais marcas a comercializar Bacalhau Demolhado Ultracongelado, mas quando começamos existiam apenas dois ou três players no mercado nacional e todos eles usavam o conhecimento adquirido da transformação do bacalhau a seco. Como vínhamos da indústria dos congelados, utilizámos a matéria prima num estado diferente, com um processo de transformação também ele diferente o que nos permitiu, desde logo, criar um novo segmento de mercado e sermos líderes nesse mesmo segmento”.
O rei do pescado numa região em que a rainha é a têxtil

Emanuel Guimarães, Diretor Geral da Soguima
“Nascemos aqui, vivemos aqui ao lado, conhecemos as pessoas, estamos perfeitamente inseridos na comunidade”
Esta diferenciação foi fundamental para o crescimento da Soguima, uma empresa que hoje exporta para entre 30 a 40 países, e que mesmo estando sediada numa região tradicionalmente ligada à indústria têxtil, não vê desvantagens em estar longe do mar. Quando questionado do porquê de se manterem aqui na região, Emanuel Guimarães refere que as suas raízes estão em Guimarães “nascemos aqui, vivemos aqui ao lado, conhecemos as pessoas, estamos perfeitamente inseridos na comunidade e, portanto, nunca se colocou sequer a questão da deslocalização da empresa, até porque estamos numa zona central, a 50km do Porto de Leixões, 30 minutos do aeroporto… não consideramos uma grande vantagem estratégica estarmos localizados mais próximo do mar”.
Com cerca de 200 colaboradores nos seus quadros, a Soguima tem vindo a sentir as mesmas dificuldades de muitas outras empresas na região, nomeadamente no que diz respeito à falta de mão-de-obra especializada, um problema que, segundo o Diretor Geral da Soguima, é cíclico, havendo alturas em que se sente mais essa falta, sendo que, nos últimos tempos esta é uma questão que tem sido mais recorrente, referindo que “é um problema que se deve não apenas a um motivo em especifico. Notamos que há poucos jovens a quererem trabalhar nesta área, sendo que as pessoas que acabam por vir ter connosco, ou vêm de outras empresas semelhantes ou são pessoas que estiveram no estrangeiro e decidiram vir trabalhar para Portugal”.

O Bacalhau demolhado ultracongelado é um dos produtos de excelência da Soguima.
Nos últimos anos as empresas têm sido desafiadas com as alterações que se têm vindo a sentir no mercado, algo que se sentiu com maior relevo durante a pandemia, um constrangimento que também afetou a forma de estar nos negócios da Soguima, como confessou Emanuel Guimarães, uma vez que a estratégia da empresa estava muito focada num tipo de produto, o bacalhau que, como disse “é um produto para o qual já é preciso algum poder de compra para ser adquirido, juntando ao facto de, por uma questão estratégica nossa, não querermos estar presentes na maior parte da moderna distribuição, apesar de trabalharmos com algumas grandes superfícies, mas esse não era o nosso foco. Com o surgimento do Covid, as empresas distribuidoras de produtos congelados, que eram os nossos melhores clientes, fecharam ou reduziram substancialmente a atividade, sendo o único canal de escoamento de produtos, precisamente, a moderna distribuição, posto isto tivemos de mudar a nossa estratégia, focando-nos neste tipo de distribuidor e neste momento já temos uma série de clientes nacionais e internacionais nesta área”.
O segredo para ultrapassar as crises económicas
Mas não foi apenas esta a mudança que a Soguima optou por fazer na sua estratégia. Também impulsionados pela crise surgida durante o período pandémico, a empresa acabou por acelerar algo que já estava nos seus planos, e que passou pela introdução de novos produtos na sua gama de modo a diminuir a dependência que tinham com a venda de Bacalhau.

A marca aposta na frescura dos seus produtos, na inovação constante e numa gestão rigorosa de todos os seus processos de gestão.
Aumentaram, assim, a produção de produtos relacionados com polvo, alargaram a sua linha de pré-cozinhados e, como sublinha Emanuel Guimarães “decidimos introduzir um leque mais alargado e variado de produtos porque acreditámos que era a melhor forma de aumentar a faturação, já que os clientes seriam os mesmos”.
Na sua linha de pré-cozinhados, cuja distribuição está mais concentrada na exportação, encontramos produtos diferenciadores como o segmento Vegan, uma marca já registada pela empresa em 2013 com vista a responder às demandas deste nicho de mercado, uma aposta que “vendia de forma razoável, para um mercado que representa apenas cerca de 5% da população. Neste momento o consumo de produtos vegan e vegetarianos tem crescido de forma exponencial, sendo que temos apostado neste segmento estando, neste momento, com duas novas linhas de produto, já na fase final de packaging, desenvolvidos para responder às necessidades dos flexiterianos, que são pessoas que se preocupam com o impacto que o consumo de proteína animal tem no planeta e que procuram alternativas mais sustentáveis para a sua alimentação, sem abdicar dos sabores e texturas tradicionais dos produtos de proteína animal”.
A criação de produtos sustentáveis é uma aposta da empresa, estando, neste momento, integrada um projeto liderado pela Universidade de Cork, na Irlanda, com vista ao desenvolvimento de alternativas de produtos de origem animal, em paralelo com o seu próprio projeto interno de desenvolvimento de produtos vegetarianos, como revelou Emanuel Guimarães “estamos a desenvolver, nomeadamente duas linhas, uma mais orgânica, com produtos sem ingredientes transformados e uma outra linha com produtos, também eles com o mínimo de ingredientes adicionados, e que tentam “imitar” a variedade animal e outros como queijo, por exemplo”.
Aposta na Investigação e Desenvolvimento como forma de aumentar a competitividade
“Se uma empresa não agregar em si essa perspetiva de gestão, ou não estiver perfeitamente enraizada na sociedade e intimamente ligada com o local onde está instalada e com a comunidade em que se insere não irá alcançar o sucesso”.
Esta forma de perceber o mercado, respondendo às suas necessidades também de uma perspetiva da responsabilidade social das empresas, é um modo de estar enraizado na filosofia de gestão da Soguima e não um modo de seguir tendências de mercado, uma vez que, e como defende o seu Diretor geral “se uma empresa não agregar em si essa perspetiva de gestão, ou não estiver perfeitamente enraizada na sociedade e intimamente ligada com o local onde está instalada e com a comunidade em que se insere não irá alcançar o sucesso. A Responsabilidade Social está ligada à nossa forma de estar no negócio e não apenas relacionado com as exigências do mercado. Não é apenas porque as pessoas estão preocupadas com a sustentabilidade que vamos produzir produtos em função disso. Se assim não for estamos condenados ao fracasso porque dependemos do bom estado da nossa matéria-prima e isso está intrinsecamente ligado ao ambiente em que ela se desenvolve”. Este feito é resultado de um trabalho muito sério e assertivo na área do Desenvolvimento e Investigação da empresa.
“Se estagnarmos e continuarmos a produzir o que já fazíamos há 5 ou 10 anos atrás, acabamos por ser ultrapassados pela concorrência”.
A constante procura de soluções inovadoras que permitam à empresa continuar a sustentar a sua posição de destaque no mercado, mantendo-se competitiva, é uma realidade da empresa desde sempre na medida em que acreditam que “se estagnarmos e continuarmos a produzir o que já fazíamos há 5 ou 10 anos atrás, acabamos por ser ultrapassados pela concorrência que, por sua vez, é cada vez maior e que faz o que fazemos, porque não é difícil perceber o processo, nomeadamente no que toca aos produtos feitos com o bacalhau, o que é difícil é conseguir fazer esse trabalho recorrendo a menos 70% da água gasta, face ao que utilizávamos há uns anos atrás, conseguindo um impacto ambiental muito menor, fruto da aposta no desenvolvimento e investigação que a empresa tem”.
A par do trabalho efetuado dentro da empresa, nomeadamente na área da Investigação e Desenvolvimento dos produtos vegan e da otimização de processos internos, a Soguima faz parte de um grupo de empresas que, em conjunto com a Universidade Cork, integra o programa Smart Protein for a Changing World, um projeto que tem como objetivo desenvolver proteínas vegetais e de biomassa microbianas inovadoras, económicas e eficientes em termos de recursos que sejam feitas na União Europeia, para a produção de ingredientes e produtos aptos para consumo humano direto, por meio do desenvolvimento de cadeias de fornecimento de proteínas que tenham um impacto positivo na bio economia, meio ambiente, biodiversidade, nutrição humana, segurança alimentar e nutricional e que sejam bem aceites pelo consumidor.
“Desde sempre quisemos agregar valor aos “desperdícios” gerados pela produção, trata-se de uma mais-valia para o ambiente e torna-nos mais competitivos!”

O aproveitamento de toda a matéria-prima é uma prioridade para a empresa. Exemplo disso é a aplicação das peles do pescado na indústria do calçado.
A aposta na I&D, por parte da Soguima não se resume apenas à área alimentar. Nos últimos anos a empresa tem-se voltado para o desenvolvimento de outros produtos que recorram a partes animais que a sua indústria não absorve, nomeadamente na transformação da pele do pescado e do bacalhau em couro, fornecendo um novo produto que, desta feita, pode ser usado pela indústria do calçado ou do mobiliário. Este é um projeto que já nasceu há alguns anos e que surgiu dessa vontade de reduzir ao máximo o desperdício gerado por esta indústria, como contou Emanuel Guimarães “de facto achávamos que era um resíduo com pouca valorização e como conhecemos um pouco a indústria dos curtumes, porque também estamos ligados à produção pecuária para a produção desse tipo de produto, achámos que era interessante agregar valor a este resíduo, surgiu então a oportunidade de utilizarmos as peles dos animais da nossa indústria e trabalhá-la com esse fim”.
Esta é, também, uma das formas que a empresa encontrou para fazer valer o conceito de economia circular na sua atividade na medida em que “desde sempre quisemos agregar valor aos “desperdícios” gerados pela produção, trata-se de uma mais-valia para o ambiente e torna-nos mais competitivos”, rematou.
Quando fala do futuro, Emanuel Guimarães diz que a empresa quer continuar a ser considerada uma empresa pequena, sempre atentos às mudanças do mercado e estando preparados para elas, ajustando-se em função dos seus caprichos, “a Soguima é já um dos grandes players a nível nacional, não queremos ser uma empresa grande, mas queremos continuar a ser uma grande empresa, gostaria que daqui a 10 anos a Soguima estivesse aqui, no mesmo sítio, com a mesma “paz de espírito”. Estamos plenamente satisfeitos com o que temos conquistado. Temos planos de expansão noutras áreas de negócio, mas iremos fazê-lo de forma regrada e sólida”.



